A estrela democrata no Alabama

A estrela democrata no Alabama

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A vitória do democrata Doug Jones sobre o republicano Roy Moore na eleição especial de ontem para uma das vagas do estado de Alabama no Senado americano embaralha as cartas para as eleições legislativas de 2018. Deu ao Partido Democrata a esperança de conquistar a maioria das cadeiras no Senado e de dificultar planos e projetos do presidente Donald Trump.

Nos Estados Unidos, quando um deputado ou senador assume um cargo no Executivo, é obrigado a renunciar a sua cadeira no Parlamento – ao contrário do Brasil, onde um suplente fica com a vaga, e é comum ministros serem exonerados apenas para votar a favor de projetos de interesse do governo para reassumir no dia seguinte.

Até agora, os republicanos não haviam tido nenhuma dificuldade para manter as vagas nas eleições especiais realizadas quando um congressista renuncia. Na Geórgia e em Montana, houve corridas eleitorais competitivas para a Câmara. Noutros estados, as margens de vitória republicana se deterioraram. Nas eleições para governos estaduuais, o Partido Republicano perdeu Nova Jersey e foi derrotado na Virgínia. Mas a eleição de ontem foi a primeira das sete parlementares deste ano em que será obrigado a ceder uma vaga no Congresso.

O resultado é ainda mais surpreendente porque o Alabama, estado do secretário de Justiça Jeff Sessions, é território seguro para os republicanos. Nenhum democrata vence nenhuma eleição estadual há dez anos. No ano passado, Trump ganhou lá com 28 pontos percentuais de vantagem.

Jones será o primeiro senador democrata pelo Alabama desde 1992. Dois fatores foram essenciais para ele vencer. Primeiro, as denúncias sobre o comportamento sexual de Moore. Em novembro, o Washington Postrevelou a acusação de que, com pouco mais de 30 anos, Moore abusara de uma menina de 14. Depois da reportagem, várias outras mulheres se disseram assediadas ou molestadas por Moore.

Moore negou as acusações e se recusou a renunciar, contra a opinião predominante em seu próprio partido. Seu discurso populista contava, nos bastidores, com o apoio de Stephen Bannon, o ex-estrategista-chefe de Trump, que articula várias candidaturas em desafio ao establishment republicano, numa tentativa de tomar o controle da máquina partidária nas eleições de 2018.

Na reta final, uma campanha paralela entre os republicanos sugeria que os eleitores escrevessem na cédula o nome do atual senador, Luther Strange, substituto indicado pelo governador para a vaga de Sessions que fora derrotado por Moore nas primárias. Na contagem final, 1,7% dos votos tinham o nome de algum outro candidato escrito. Jones derrtou Moore por uma margem de 1,5 pontos percentuais, 49,9% a 48,4%, ou pouco mais de 20 mil votos.

O segundo fator responsável pela vitória foi o alto comparecimento do eleitorado negro e jovem. O Alabama é um estado com uma ferida racial profunda, palco da célebre marcha de protesto de Selma a Montgomery, liderada por Martin Luther King em 1965.

Desde os anos 1960, o Partido Democrata no estado sofreu o êxodo em massa do grupo conhecido como “dixiecrats”, que lutava pela preservação da segregação racial e contra os direitos civis. De partido controlado por racistas, vários deles integrantes da Ku Klux Klan, os democratas passaram a ser o partido prefencial dos negros.

Enquanto o Senado rejeitou a indicação de Sessions para um cargo de juiz, diante de acusações de comportamento racista, Jones é conhecido como o magistrado responsável por processar dois integrantes da Ku Klux Klan que lançaram bombas numa igreja Batista em 1963.

Sua chegada ao Senado reduzirá a maioria republicana para apenas um voto – para 51 a 49. Ele não chegará a tempo de evitar a aprovação da reforma tributária de Trump, prevista para o próximo dia 22. Jones bastaria para virar o placar, hoje 50 a 50 (dois republicanos rejeitam a reforma), desempatado pelo voto de Minerva do vice-presidente Mike Pence. Somado aos republicanos dissidentes, Jones promete, daqui para a frente, dificultar a vida de Trump.

A questão deixada ontem em aberto é se os democratas terão chance de retomar o controle do Senado na eleição de 2018 e, com isso, barrar as indicações judiciais e projetos de Trump. A vitória de Jones provocou ondas de júbilo no Partido Democrata, ao mostrar um caminho eficaz de campanha para conquistar um estado republicano.

Mas a chance de controle democrata ainda é pequena. Haverá eleição para o Senado em 34 estados no ano que vem – incluindo Minnesota, depois da renúncia do senador Al Franken, também sob acusações de assédio sexual. Dessas 34 cadeiras, apenas oito estão em poder dos republicanos – e só uma delas num estado vencido por Hillary Clinton no ano passado, Nevada.

Das 26 cadeiras democratas, 10 estão em estados vencidos por Trump. Cinco delas, por margens robustas (Montana, Dakota do Norte, Missouri, Indiana e Virgínia Ocidental). As outras cinco, por margens mais apertadas (Flórida, Pensilvânia, Ohio, Michigan e Wisconsin).

Ainda que os democratas mantenham essas cinco cadeiras e ganhem em Nevada e no Arizona (onde Hillary reduziu bastante a margem de vitória republicana), precisarão repetir o êxito de Moore em todos os cinco estados solidamente republicanos para conquistar os 51 votos que formam a maioria do Senado. A queda na popularidade de Trump e dos republicanos pode ajudar. Mesmo assim, será bem difícil.

Via G1

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